1978 a 1993
O contexto da formação
À época, os terrenos comunitários encontravam-se sob a alçada da Junta de Freguesia de Campia, mas Rebordinho não ficou indiferente a este movimento, vendo nos novos diplomas a oportunidade de mudar e assumir a sua gestão. Com o ano de 1978 a decorrer, são feitas inúmeras diligências, chegando mesmo a realizar-se duas Assembleias de Compartes.
Temas como a exploração de água para abastecimento à povoação, a colocação de fontanários e o melhor destino a dar aos pinheiros caídos estiveram entre as preocupações mais imediatas e, no plano florestal, a necessidade de elaborar um plano de aproveitamento do território.
A vontade do povo viria, no entanto, a ser gorada e a falta do edital com a convocatória no processo, impediu a sua formalização.
A economia local e o dia-a-dia da comunidade estavam, desde tempos remotos e de forma intrínseca, ligados aos baldios, deles dependendo muita matéria-prima, por exemplo para a sobrevivência dos animais e para a realização de investimentos.
Com o alvor da liberdade e da democracia, após abril de 1974, também a política que vinha a ser adotada na gestão dos baldios, sofreu profundas alterações.
1994
A constituição oficial
Com o passar dos anos, não diminuíram as preocupações da aldeia de Rebordinho e das suas gentes, que assistiam à desenfreada delapidação dos baldios, com muito património coletivo a ser alvo de aproveitamento alheio, sem que as autoridades competentes tomassem as rédeas da situação.
Face ao descontentamento quase generalizado da população, após a Junta de Freguesia de Campia ter marcado novos lotes de árvores para abate em Rebordinho, de modo a concretizar dinheiro, sem dar qualquer satisfação, a população decide juntar-se e formalizar a constituição da Assembleia de Compartes, que uniu as aldeias de Rebordinho e Malhadouro. A reunião é feita, de emergência, na véspera da data marcada para a venda em hasta pública da madeira, incluindo o caderno de recenseamento e a aprovação dos órgãos sociais.
Superados os trâmites legais, a Assembleia de Compartes e o seu Conselho Diretivo assumem os desígnios dos baldios.E as oportunidades são inúmeras, começando pela oportunidade de se implementar uma gestão democrática, com os compartes a serem voz ativa nas decisões, e um trabalho eficiente. Procurou potenciar-se a riqueza endógena, nomeadamente a floresta e o subsolo, e não tardam a aparecer os primeiros resultados.
Destaque, neste campo, para o protocolo com a Câmara de Vouzela, para a deposição do aterro sanitário num lote de terreno do lugar das Cavadas e, em contrapartida, é rasgada e alcatroada uma estrada que atravessa o baldio. Além das limpezas e beneficiação de caminhos, mantém-se a preocupação social e é comprada uma cisterna.
2002 a 2017
A Casa dos Compartes e um novo paradigma
Embora tivessem decorrido apenas oito anos da sua formação, os primeiros meses do ano de 2002 trazem a conclusão de uma ambicionada obra: a Casa dos Compartes.
O edifício, composto por espaços administrativos e outros polivalentes, foi custeado a expensas apenas do organismo e veio encher de orgulho os compartes – e não só – e reforçar o sentimento de pertença. O imóvel continua a ser, ainda hoje, um ponto de encontro de referência para o acolhimento de eventos de caráter social, recreativo e cultural.
Pelas aldeias de Rebordinho e Malhadouro, as obras continuam, com a manutenção e beneficiação de caminhos, a limpeza de valetas e agueiros, a colocação de aquedutos, alcatroamento de vias e construção de reservatórios de água para usufruto da comunidade, além de outros projetos.
Sinal da sua preocupação social, as associações e instituições da freguesia são contempladas nos investimentos. Entre as entidades beneficiadas estão o Grupo de Amigos de Rebordinho, os Bombeiros Voluntários de Vouzela, o Grupo Carnavalesco de Campia, o Grupo Desportivo de Campia, e as Comissões de Festas de Santa Ana e de São Miguel.
Com o olhar no futuro, avança-se com o loteamento para construção de habitações e é acordada a compra de um relógio para a Capela.
Numa época áurea, os baldios sofrem um duro revés, com um trágico incêndio em outubro de 2017 a devastar o património. O Conselho Diretivo, num sinal de gestão eficiente, opta por comprar uma balança e conseguir maximizar a rentabilidade.
Atualidade
Com a devastação provocada pelo fogo, é necessário ‘reerguer’ o baldio e, ao mesmo tempo, apostar numa administração criteriosa, uma vez que a madeira, enquanto fonte de receita, vai exigir o seu tempo até estar novamente disponível. O trabalho de ordenamento assume, assim, um papel preponderante numa visão diferente da gestão da floresta. O eucalipto, que se disseminou de forma autónoma com as chamas, continua presente, mas o pinho, de crescimento mais lento, mantém o seu lugar. A recuperação do potencial produtivo foi um grande desafio.
Dando resposta aos reptos próprios do tempo e ao bem-estar da população, o Conselho Diretivo da Comunidade Local dos Baldios de Rebordinho e Malhadouro tem imprimido algum arrojo e criatividade à sua ação, sem nunca esquecer a vertente pedagógica e a salvaguarda do bem comum.
Um dos problemas que mereceu a intervenção do organismo foi o combate à vespa asiática, uma espécie invasora que representa sérios prejuízos, nomeadamente à atividade apícola na freguesia. Foram feitas, com materiais recicláveis, armadilhas seletivas, que foram distribuídas pela aldeia, incluindo espaços públicos, e procurou-se informar e autonomizar a população nesta área, para que o projeto tenha continuidade.
Embora as pequenas intervenções continuem a fazer parte dos planos de atividades, de acordo com o escrutínio democrático, o dinamismo cultural também ganhou destaque. Através de uma parceria com a Binaural Nodar tem sido possível criar eventos regulares na antiga escola primária, nomeadamente exposições temáticas e documentários, que trouxeram à liça as memórias, a pertença social e a própria história da constituição dos Compartes de Rebordinho e Malhadouro. Sempre com o envolvimento dos principais ativos locais: as pessoas.
Os desafios de sempre e a economia do amanhã
Depois de colmatadas as principais carências em termos de equipamentos comunitários, ou pelo menos dos que estão dentro das possibilidades e da sua base legal, o trabalho da Comunidade Local dos Baldios de Rebordinho e Malhadouro tem continuado.
A melhoria dos acessos, a construção de muros de suporte e a aposta na rede de reservatórios de água que traz proveito para a agricultura, estão entre as intervenções constantes, paralelamente com outras importantes obras de interesse económico, social, cultural, ambiental e, de forma direta ou indireta, a criação de emprego. Sempre de acordo com um plano de atividades e as deliberações dos órgãos competentes dos compartes, numa lógica de coesão territorial e de intervenção participativa.
Ao assinalar o seu 30º aniversário, a história fica gravada a letras de ouro, mas é já a pensar no futuro que se preparam novos projetos que tragam o desenvolvimento da economia local e a melhoria da qualidade de vida das populações.































